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#COMCIÊNCIA

Coluna #ComCiência: Negritude e ancestralidade em Luandino Vieira

  • Publicado: Quinta, 12 de Fevereiro de 2026, 11h43
  • Última atualização em Quinta, 12 de Fevereiro de 2026, 11h43
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Negritude

José Luandino Vieira firmou -se como um dos mais importantes escritores da literatura angolana, cuja obra está ligada à luta pela independência de Angola. Tendo participado ativamente do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), sua produção literária reflete a realidade dos musseques (bairros pobres) de Luanda, utilizando a linguagem do povo como instrumento de resistência cultural e afirmação de uma identidade nacional em oposição ao projeto colonial português.

Nesse sentido, o conto "Estória da Galinha e do Ovo", da obra Luanda (1963), exemplifica com perfeição o seu projeto literário. A trama parte de um conflito aparentemente simples, uma disputa pela posse de um ovo entre duas vizinhas, Nga Zefa e Nga Bina, que mobiliza a comunidade. Para mediar a disputa, recorre-se à figura de Vavó Bebeca, a anciã do musseque, cuja autoridade moral origina de sua conexão com a sabedoria ancestral, representando a justiça comunitária e os valores da negritude.

Dessa forma, o recorte temático da ancestralidade e da negritude é central na narrativa. A ancestralidade é materializada em Vavó Bebeca, que detém o saber tradicional e a legitimidade para solucionar conflitos internos com base na ética e na coesão do grupo. A negritude, por sua vez, é a própria vivência coletiva do musseque em que a solidariedade e a resistência cultural expressam, na oralidade e nos costumes, a contraposição à lógica individualista e repressora do sistema colonial, que surge na narrativa para desestabilizar a harmonia.

Tal representação encontra forte embasamento teórico nos estudos de Kabengele Munanga. Em sua obra Negritude: Usos e Sentidos (2012), o autor redefine o conceito para além de uma questão puramente racial, tratando-o como um projeto político e cultural. Conforme Munanga, a Negritude é a busca de uma identidade, o sentimento de orgulho de seus valores culturais e o instrumento de luta contra a frustração e o complexo de inferioridade impostos pela dominação colonial. A atuação de Vavó Bebeca é a própria personificação dessa afirmação; sua sabedoria não é apenas folclore, mas um instrumento de luta que reafirma os valores culturais africanos como legítimos e suficientes para a organização social, em direta oposição à inferiorização colonial.

Além do mais, essa dinâmica literária reverbera em contextos sociais contemporâneos, extrapolando o universo ficcional. Um exemplo claro pode ser observado no papel das lideranças mais velhas, especialmente as mulheres, em comunidades quilombolas no Brasil. Essas matriarcas, assim como Vavó Bebeca, são as guardiãs da memória coletiva e da identidade do grupo. Elas presidem as decisões, resolvem disputas e garantem a transmissão de conhecimentos ancestrais, sendo pilares na luta pela terra e contra o racismo estrutural, o que demonstra a vitalidade da negritude como prática de resistência.

Assim, ao analisar "Estória da Galinha e do Ovo" sob a ótica de Kabengele Munanga, percebe-se que Luandino Vieira constrói uma narrativa poderosa sobre a negritude em ação. A personagem Vavó Bebeca transcende a figura da anciã para se tornar um símbolo da ancestralidade como alicerce de um projeto de identidade e autonomia. O conto demonstra que a valorização da cultura e da sabedoria africana não é um retorno ao passado, mas uma estratégia fundamental de resistência e afirmação da dignidade no presente.

Artigo escrito por Luciana Ataide, professora da Faculdade de Letras e Educação/Unifesspa e por Luiz Junior Carvalho, graduando em Letras – Língua Portuguesa/Unifesspa.

Originalmente publicado na coluna #ComCiência, do jornal Correio de Carajás, edição nº 4446 -  dias 24 a 26 de janeiro de 2026 07 a 09 de fevereiro de 2026.

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