V Julho das Pretas debate racismo e suas intersecções
O Evento ofertou uma série de atividades como oficinas, apresentações de trabalhos, palestras, exposições e atividades culturais em alusão ao Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e ao Dia Nacional de Tereza de Benguela.

O evento Julho das Pretas reuniu, na última quinta-feira (24), estudantes, professores, pesquisadores, representantes de movimentos sociais e comunidade externa na Unidade I da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), em Marabá. Em sua quinta edição, a iniciativa promoveu um dia de debates, oficinas, apresentações de trabalhos científicos e atividades culturais voltadas à discussão das relações étnico-raciais, de gênero e sexualidade, reafirmando o compromisso da universidade com a promoção da equidade racial e a valorização das trajetórias de mulheres negras.
Organizado pelo Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi/Unifesspa), o evento integra as mobilizações do Julho das Pretas, movimento que tem como marco o dia 25 de julho, quando é celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.
Segundo a professora Ruth de Souza Santana, uma das organizadoras, a iniciativa nasceu em 2021, em parceria com a professora Flávia Marinho Lisboa, com o propósito de ampliar o debate sobre raça, gênero e sexualidade dentro da universidade.
"A gente traz esse evento com o objetivo de discutir essas questões dentro da academia, mas também de trazer para esse espaço mulheres que constroem resistência no município de Marabá", destacou. 
Desde a primeira edição, o evento vem crescendo em alcance e participação. Inicialmente realizado na Unidade III, passou a acontecer, a partir de 2025, na Unidade I, consolidando um formato que reúne atividades ao longo de todo o dia.
A programação incluiu oficinas, apresentação de trabalhos em eixos temáticos, mesa de debates e atividades culturais. Para Ruth Santana, a diversidade de formatos busca aproximar diferentes públicos de um tema que ainda apresenta muitos desafios.
"A gente entende que as políticas públicas voltadas para as populações negras ainda precisam avançar bastante. Por isso, a pauta deste ano também discute reparação e bem viver para as populações negras."
Embora seja realizado em apenas um dia, a expectativa da organização é ampliar sua duração nas próximas edições, diante do crescente número de iniciativas culturais e acadêmicas ligadas à temática.
Público cresce a cada edição
Mesmo sendo realizado durante o período de férias acadêmicas, quando parte dos estudantes e professores está fora de Marabá, o Julho das Pretas tem registrado aumento constante de público.
De acordo com Ruth Santana, o evento passou por um processo de amadurecimento nos últimos anos, tanto na organização quanto na divulgação.
"As pessoas já sabem que o evento acontece todos os anos e começam a se organizar para participar. Hoje temos uma circulação entre 200 e 300 pessoas durante todo o dia."
Além do Neabi, a programação contou com o apoio de diversos parceiros, entre eles laboratórios da Unifesspa, sindicatos, Sebrae, agentes culturais e instituições como o Museu da Casa da Cultura e o Arquivo Histórico Manoel Domingues, responsáveis por uma exposição e pela exibição de um documentário sobre mulheres negras da região.
Políticas públicas e enfrentamento ao racismo
Um dos destaques da programação foi a conferência da educadora e militante Iêda Leal, referência nacional na luta pela igualdade racial.
Durante sua fala, Iêda ressaltou a importância do conhecimento histórico e da educação antirracista como instrumentos de transformação social.
"Racismo é crime. Nós temos que falar sobre isso todos os dias."
A conferencista também defendeu o aprofundamento dos estudos sobre a história da população negra, a valorização da participação política e a construção de uma educação comprometida com a democracia e os direitos humanos.
Convidados e programação
A quinta edição reuniu pesquisadoras, militantes e docentes envolvidos com a promoção da equidade racial. Entre os convidados estiveram Iêda Leal; a pesquisadora Eiane Moreno, que desenvolve estudos sobre violência obstétrica e racismo obstétrico; e a militante Rosemeire Bezerra, reconhecida pela atuação em defesa das políticas públicas para a população negra em Marabá.
A programação também contou com professores da Unifesspa responsáveis pela coordenação dos eixos temáticos, além de uma programação cultural encerrada com apresentação da DJ Nic Dias e atividades organizadas em parceria com instituições culturais do município.
Formação acadêmica e novos aprendizados
Entre os participantes estava a estudante de Ciências Sociais Isabela Rebeca Corrêa de Sena, que destacou a importância da atividade para sua formação acadêmica.
"Eu decidi participar para aprimorar meu conhecimento sobre essa temática. Conheci a Iêda Leal e outras mulheres importantes do movimento negro, aprendi sobre o racismo obstétrico, assunto que eu ainda não conhecia"
Para a estudante, o evento amplia horizontes ao apresentar novas referências e experiências.
"É importante participar desses eventos porque a gente conhece pessoas extremamente importantes e também assuntos que muitas vezes ainda não fazem parte do nosso cotidiano. Foi aqui que conheci a história da Ingrid Silva, bailarina brasileira que por 11 anos pintou suas sapatilhas de marrom para combinar com o tom de sua pele."

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